sábado, 3 de novembro de 2012

AGOSTINHO DA SILVA





Biografia
George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto em 1906, tendo-se ainda nesse ano mudado para Barca d’Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), onde viveu até aos seus 6 anos, regressando depois ao Porto, onde inicia os estudos na Escola Primária de São Nicolau em 1912, ingressando em 1914 na Escola Industrial Mouzinho da Silveira e completando os estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, de 1916 a 1924.
Cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental em 1939, e em 1940 publica Iniciação: cadernos de informação cultural. É preso pela polícia política em 1943, abandonando o país no ano seguinte (1944) em direcção à América do Sul, passando pelo Brasil, Uruguai e Argentina, no seguimento da sua oposição ao Estado Novo conduzido por Salazar.
Em 1947 instala-se definitivamente no Brasil, onde viveu até 1969. Em 1948, começa a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, estudando entomologia, e ensinando simultaneamente na Faculdade Fluminense de Filosofia. Colabora com Jaime Cortesão na pesquisa sobre Alexandre de Gusmão. De 1952 a 1954, ensina na Universidade Federal da Paraíba (em João Pessoa (Paraíba) e também em Pernambuco.
Em 1954, novamente com Jaime Cortesão, ajuda a organizar a Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. É um dos fundadores da Universidade de Sant Catarina, cria o Centro de Estudos Afro-Orientais, e ensina Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia, tornando-se em 1961 assessor para a política externa do presidente Jânio Quadros. Participou na criação da Universidade de Brasília e do seu Centro Brasileiro de Estudos Portugueses no ano de 1962 e, dois anos mais tarde, cria a Casa Paulo Dias Adorno em Cachoeira e idealiza o Museu do Atlântico Sul em Salvador (Bahia).
Regressa a Portugal em 1969, após a doença de Salazar e a sua substituição por Marcello Caetano, que deu origem a alguma abertura política e cultural do regime. Desde aí continuou a escrever e a leccionar em diversas universidades portuguesas, dirigindo o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e no papel de consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, (actual Instituto Camões).

Adoptar uma só máscara? Eu acho que isso não deve ser o ideal. Porque o ideal é ir na corrente do rio, bem alegre, bem divertido com o rio, pronto para ir para todos os lugares aonde ele levar, porque acho que todas as pessoas que têm um ideal, de certo modo estão presas por esse ideal. É que o voto fundamental da pessoa deve ser, de facto, o voto à liberdade.

Claro que é impossível ter por ideal o não ter ideal, é qualquer coisa de impos­sível para nós e é muito bom que o homem saiba, que cada um saiba, que há uma série de coisas, que são efectivamente impossíveis para ele, mas que sabendo que são impossíveis, possa tentar o que é impossível, apenas porque ele é limitado, porque é um reflexo muito ténue, uma centelhazinha muito distante daquilo ou daquele de que ele é imagem.

Digo de propósito daquele ou daquilo, para dizer que dou perfei­tamente como possível que nenhum homem,nenhum pensamento personalize o aquilo, porque talvez personalizar o aquilo é já pô-lo não como nós sermos a ima­gem e criação dele, mas como sendo ele a imagem e criação nossa.

Quando as pes­soas pensam num ser divino que as vigia, que bate num, que premeia outro, etc., estão realmente a transportar-se a si próprias para uma atmosfera divina, para um poder divino que de nenhuma maneira lhes pertence. O que há lá, a tal outra coisa que pode ser tudo, é tão ilimitada, que não pode tomar nenhuma das nossas histó­rias; realmente, pela essência é imprevisível, voa a tudo. Então talvez que o ideal da Humanidade, um ideal muito importante hoje na História, é passarmos do previsí­vel ao imprevisível.

Porque nós estamos a criar e a viver uma civilização desde a primeira Pré-História, uma civilização em que nos parece que temos por ideal o previsível. Hoje a informática e outras coisas semelhantes e todas as tentativas para criar inteligência mecânica, a que tantos homens se dedicam, parecem ser exacta­mente uma maneira de dominar o imprevisível. Então acho que só nos podemos soltar disso, começando a amar, a querer o imprevisível. Porque se o quisermos, estamos na posição de termos ao mesmo tempo um ideal – o imprevisível – e de não ter ideal nenhum, porque ele é imprevisível. 

Agostinho da Silva (1906-1994) Porto, Portugal
In Vida Conversável (1994)