sexta-feira, 24 de junho de 2016

Noite de São João



Noite de São João.
Minha infância e as fogueiras da noite de São João andam comigo
Sempre na memória
Sempre nas lembranças
Quantas fogueiras eu pulei? Quantos balões que nunca soltei?...
O cheiro de milho assado queimando nas brasas da fogueira em frente ao portão da casa da vó Chiquinha
Cada ano vestido e sapato novos
No cabelo laços coloridos combinando com as tiras de cetim do vestido de babados e saia rodada
Quantas noites já vivi com essas lembranças...
Tempo de família, tempo de sorrisos e gargalhadas altas estremecendo toda a casa
Na mesa a cor amarela predominava nas canjicas, nos milhos, nos bolos, nas cocadas, nas pamonhas lindamente amarradas que mais pareciam presentes...
Ah! Lá se foi o balão, as risadas e os sonhos.
Jô Ramos.
23/06/2016

domingo, 13 de outubro de 2013

Alice Munro Ganha o Prêmio Nobel da Paz

 

 

Conto inédito em português da Nobel de Literatura Alice Munro

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ALICE MUNRO
tradução CAETANO W. GALINDO
Ouvir o texto
SOBRE O TEXTO "O Olho", o conto reproduzido abaixo, integra a mais recente coletânea de Alice Munro, premiada com o Nobel de Literatura na última quinta. O conto é um dos quatro escritos de inspiração autobiográfica com que a escritora canadense encerra "Querida Vida", volume de 2012 que a Companhia das Letras lança em novembro.
*
Quando eu tinha cinco anos, de repente meus pais apareceram com um menininho, que minha mãe disse que era o que eu sempre quisera. De onde ela tirou essa ideia eu não sei. Ela deu uma bela enfeitada naquilo, tudo inventado, mas difícil de contrariar.
Aí um ano depois apareceu uma menininha, e de novo foi uma balbúrdia, mas menos que da primeira vez.
Até a época do primeiro bebê, eu não me lembro de ter sentido algo diferente do que aquilo que a minha mãe dizia que eu estava sentindo. E até aquela época, a casa toda era tomada pela minha mãe, pelos passos dela, pela sua voz, por aquele cheiro poeirento, mas funesto que ocupava todos os cômodos mesmo quando ela não estava dentro deles.
Por que eu digo funesto? Eu não tinha medo. Não é que a minha mãe me dissesse exatamente como eu devia me sentir a respeito das coisas. Ela era uma autoridade no assunto, isso nem se questionava. Não só no caso de um irmão mais novo, mas também quanto ao cereal Red River, que me fazia bem e de que, portanto, eu devia gostar. E quanto à minha interpretação do quadro que ficava no pé da minha cama, que mostrava Jesus tolerando que as criancinhas viessem até ele. Tolerar significava outra coisa naquele tempo, mas não era nisso que a gente se concentrava. Minha mãe apontava a menininha meio escondida num canto porque queria ir até Jesus, mas era tímida demais para isso. Aquela era eu, minha mãe dizia, e eu achava que era, mas não teria entendido isso sem ela me dizer e na verdade preferia que não fosse assim.
O que me deixava tristíssima mesmo era a Alice no país das maravilhas imensa e presa no buraco do coelho, mas eu ria, porque a minha mãe parecia estar adorando.
Mas foi com a chegada do meu irmão e com aquele falatório todo sobre como ele era um tipo de presente pra mim que eu comecei a aceitar o quanto as certezas que minha mãe tinha a meu respeito diferiam das minhas próprias.
Acho que isso tudo estava me preparando para o momento em que a Sadie veio trabalhar para nós. Minha mãe tinha se recolhido para sabe-se lá qual território que ela ocupava com os bebês. Sem ela por ali o tempo todo, eu podia pensar no que era verdade e no que não era. Eu já sabia o suficiente para não falar dessas coisas com ninguém.
A coisa mais estranha da Sadie -apesar de não ser muito comentada lá em casa- era que ela era uma celebridade. A nossa cidade tinha uma rádio onde ela tocava violão e cantava o tema de abertura da programação, que ela mesma tinha composto.
"Olá, olá, olá, todo mundo...".
E meia-hora depois era, "A-deus, a-deus, a-deus, todo mundo." Entre um e outro, ela cantava músicas que as pessoas pediam e também algumas que ela mesma escolhia. As pessoas mais sofisticadas da cidade tendiam a rir das músicas dela e da rádio toda, que diziam que era a menor do Canadá. Essas pessoas escutavam uma estação de Toronto que transmitia canções populares da época - "Three little fishes and a mommy fishy too..." - e Jim Hunter berrando as desesperadas notícias da guerra. Mas as pessoas das fazendas gostavam da rádio local e daquelas canções que a Sadie cantava. A voz dela era forte e triste e ela cantava sobre a solidão e a dor.
Apoiada na cerca fria
De um curral imenso
Olhando pela trilha ao fim do dia
É só em você que eu penso
Quase todas as fazendas daquele canto do país tinham sido desmatadas e ocupadas havia coisa de cento e cinquenta anos, e de quase qualquer casa de fazenda dava para avistar outra casa de fazenda a poucos pastos de distância. Ainda assim, as músicas que os fazendeiros queriam ouvir falavam todas de vaqueiros solitários, do encanto e da decepção de lugares distantes, dos crimes horrorosos que faziam criminosos morrerem com o nome da mãe nos lábios, ou o de Deus.
Era isso que a Sadie cantava com tanto sentimento num tom de contralto encorpado, mas trabalhando com a gente ela era cheia de energia e de confiança, gostava de conversar e em especial de conversar sobre si própria. Normalmente não tinha ninguém para ouvir o que ela dizia, só eu. As ocupações dela e as da minha mãe as mantinham separadas quase o tempo todo e de qualquer forma eu acho mesmo que elas não teriam gostado de conversar. Minha mãe era uma pessoa séria, como já insinuei, que tinha dado aulas na escolinha antes de dar aulas para mim. Talvez ela tivesse gostado se a Sadie fosse alguém que ela pudesse ajudar, ensinando a não dizer "Cês quer". Mas a Sadie não dava muitos indícios de querer ajuda de quem quer que fosse, ou de querer falar de um jeito diferente de como sempre falara.
Depois da ceia, que era a refeição do meio-dia, a Sadie e eu ficávamos sozinhas na cozinha. Minha mãe aproveitava para tirar uma soneca e, se estivesse num dia de sorte, os bebês dormiam também. Quando ela acordava, punha um vestido diferente, como se estivesse esperando uma tarde tranquila, mesmo que seguramente fosse haver mais fraldas para trocar e também mais daquela atividade desagradável que eu me esforçava para não ver, a menorzinha chupando um peito dela.
Meu pai também tirava uma soneca -talvez uns quinze minutos na varanda com o "Saturday Evening Post" cobrindo a cara antes de voltar para o celeiro.
A Sadie esquentava água no fogão e lavava a louça, com a minha ajuda e com as persianas baixadas para não deixar entrar o calor. Quando a gente acabava, ela esfregava o chão e eu secava, com um método que eu tinha inventado - patinando de um lado para outro com panos de chão nos pés. Aí a gente retirava as espirais de papel pega-mosca amarelo e grudento que tinham sido colocadas depois do café da manhã e que àquela altura já estavam pesadas, cheias de moscas pretas mortas ou que zumbiam quase mortas, e pendurava as espirais novinhas, que estariam cheias das recém-mortas na hora do jantar. Tudo isso enquanto a Sadie me falava da vida dela.
Nessa época eu não conseguia julgar com facilidade a idade dos outros. As pessoas eram crianças ou adultas e eu achava que ela era adulta. Talvez ela tivesse dezesseis, talvez dezoito ou vinte anos. Fosse qual fosse sua idade, ela anunciou mais de uma vez que não estava com pressa de casar.
Frequentava bailes todo fim de semana, mas ia sozinha. Sozinha e só para si, dizia.
Ela me falou dos salões de baile. Tinha um na cidade, perto da rua principal, onde ficava a pista de curling no inverno. Você pagava um dime por uma dança, aí subia e dançava numa plataforma com as pessoas te encarando em volta, mas não que ela se incomodasse com isso. Ela sempre gostava de pagar ela mesma o seu dime, para não ficar em dívida. Mas às vezes um sujeito chegava antes dela. Ele perguntava se ela queria dançar e a primeira coisa que ela dizia era, E você sabe? Você sabe dançar? ela perguntava, seca. Aí ele dava uma olhada esquisita pra ela e dizia que sim, como quem quer dizer senão por que eu estaria aqui? E no fim o que ele chamava de dança em geral era um arrasta-pé com aquelas mãozonas carnudas agarrando a Sadie. Às vezes ela simplesmente deixava o sujeito ali perdido, saía dançando sozinha - que era o que ela gostava mesmo de fazer, afinal. Ela terminava a dança, que já estava paga, e se o camarada que pegava o dinheiro reclamasse e quisesse obrigá-la a pagar por dois quando ela era uma só, ela dizia para ele parar com isso. Eles podiam ficar todos rindo dela dançando sozinha se quisessem.

Dea Lellis/Arte Folha
O outro salão de baile ficava logo na saída da cidade, na estrada. Lá você pagava na porta, e não era por uma dança, mas pela noite toda. O nome do lugar era Royal-T. Ela também pagava sozinha, ali. Normalmente tinha uma classe melhor de dançarinos, mas mesmo assim ela tentava dar uma olhada para ver como eles se viravam antes de deixar que a tirassem para dançar. Em geral eram uns sujeitos da cidade enquanto que os do outro salão eram mais country. Com passos melhores - os da cidade - mas não era sempre com os passos que você tinha que se preocupar. Era com onde eles queriam segurar. Às vezes ela tinha que mandar eles pastarem e dizer o que ia fazer com eles se não parassem com aquilo. Ela deixava bem claro que tinha ido ali dançar e tinha pagado ela mesma. Além de tudo ela sabia onde acertar uma pancada. Aquilo deixava eles bem certinhos. Às vezes eram bons de dança e ela conseguia se divertir. Aí quando tocavam a última dança ela corria direto pra casa.
Ela não era como as outras, dizia. Ela não queria ser fisgada.
Fisgada. Quando ela dizia isso, eu via um anzol imenso descendo, com umas criaturinhas malvadas na ponta te enganchando de um jeito que você nunca mais poderia sair. A Sadie deve ter visto algo assim no meu rosto porque disse para eu não ficar com medo.
"Você não -precisa ter medo de nada nesse mundo, só se cuide."
"Você e a Sadie vivem conversando," minha mãe disse.
Eu sabia que viria alguma coisa que merecia cuidado, mas não sabia o quê.
"Você gosta dela, né?"
Eu disse que sim.
"Bom, claro que gosta. Eu também gosto."
Eu torci para aquilo ter acabado e por um momento pensei que tinha mesmo.
Aí, "Você e eu não ficamos muito juntas agora que a gente teve os nenês. Eles não deixam muito tempo pra gente, né?
"Mas a gente ama os nenês, né?"
Disse logo que sim.
Ela disse, "De verdade?"
Ela não ia parar se eu não dissesse de verdade, então eu disse.
*
Minha mãe queria muito alguma coisa. Será que eram boas amigas? Mulheres que jogavam bridge e tinham maridos que iam trabalhar de terno com colete? Não exatamente, e nem adiantava esperar por isso mesmo. Será que era eu como eu era antigamente, com os cachinhos no cabelo que eu não me incomodava de ficar bem quietinha enquanto ela ajeitava, ou o catequismo que eu fazia direitinho? Ela não tinha mais tempo para cuidar dessas coisas agora. E uma parte de mim estava ficando traiçoeira, embora ela não soubesse por quê, e eu também não sabia. Eu não tinha feito amigos da cidade na catequese. Em vez disso, eu idolatrava a Sadie. Ouvi minha mãe dizer para o meu pai. "Ela idolatra a Sadie."
Meu pai disse que a Sadie era um presente de deus. O que isso queria dizer? Ele parecia animado. Talvez quisesse dizer que não ia defender nem uma nem outra.
"Eu queria que a gente tivesse calçadas decentes para ela," minha mãe disse. "Talvez se a gente tivesse calçadas decentes ela aprendesse a patinar e fizesse uns amigos."
Eu queria mesmo ter patins. Mas agora, sem saber por quê, eu sabia que nunca ia admitir que queria.
Aí minha mãe disse alguma coisa sobre ficar melhor quando as aulas começassem. Algo sobre eu ficar melhor ou algo a respeito da Sadie que ia ficar melhor. Eu não queria ouvir.
A Sadie estava me ensinando umas músicas dela e eu sabia que eu não cantava muito bem. Eu torcia para não ser aquilo o que tinha que ficar melhor ou acabar. Eu não queria, de verdade, que aquilo acabasse.
Meu pai não tinha muito pra dizer. Eu era problema da minha mãe, a não ser mais tarde quando acabei ficando bem boca-suja e tinha que ficar de castigo. Ele estava esperando meu irmão ficar mais velho e passar a ser problema dele. Menino não tinha como ser tão complicado.
E claro que o meu irmão não foi. Ele cresceu bem tranquilo.
*
Agora as aulas começaram. Começaram tem umas semanas, antes de as folhas ficarem vermelhas e amarelas. Agora elas tinham quase todas ido embora. Eu não estou com o meu casaco da escola, mas com o melhor, aquele com os debruns de veludo escuro no punho e no colarinho. Minha mãe está com o casaco que ela usa para ir à igreja, e com um turbante que cobre quase todo o cabelo dela.
Minha mãe está dirigindo para sabe-se lá onde é que nós estamos indo. Ela não dirige muito, e sua direção é sempre mais solene e no entanto mais incerta que a do meu pai. Ela buzina em tudo quanto é esquina.
"Isso," ela diz, mas leva um tempo para colocar o carro na vaga.
"Então chegamos." Aparentemente, a voz dela quer ser encorajadora. Ela encosta na minha mão para me dar uma chance de segurar a dela, mas eu finjo que não percebo e ela tira a mão.
A casa não tem jardim nem calçada. É bacana, mas meio feia. Minha mãe ergueu a mão enluvada para bater na porta mas no fim nem precisamos. Abrem para nós. Minha mãe acabou de começar a me dizer alguma coisa encorajadora - alguma coisa meio, Vai ser mais rápido do que você pensa - mas ela não termina. O tom em que ela falou comigo foi algo severo, mas levemente tranquilizador. Ele muda quando abrem a porta e vira uma coisa mais contida, mais baixinha, como se ela estivesse curvando a cabeça.
A porta foi aberta para um pessoal sair, e não só para a gente entrar. Uma das mulheres que estão saindo fala por sobre o ombro com uma voz que não passa nem perto de tentar ser suave.
"É para ela que a moça trabalhava, e para a menininha ali."
Aí uma mulher que está vestida bem elegante vem falar com a minha mãe e ajuda a tirar o casaco dela. Isso feito, minha mãe tira o meu casaco e diz para a mulher que eu gostava especialmente da Sadie. Ela espera que seja tudo bem ter me trazido.
"Ah, coitatinha," a mulher diz e a minha mãe encosta de levinho em mim para me fazer dizer oi.
"A Sadie adorava criança," a mulher disse. "Adorava mesmo."
Eu percebo que tem mais duas crianças ali. Meninos. Eu conheço os meninos da escola, sendo um deles da primeira série, comigo, e o outro mais velho. Eles estão espiando lá de onde provavelmente é a cozinha. O mais novo está enfiando um biscoito inteirinho na boca de um jeito cômico e o outro, mais velho, está fazendo uma cara de nojo. Não para o enfiador de biscoito, mas para mim. Eles me odeiam, claro. Os meninos ou te ignoravam quando te encontravam num lugar que não fosse a escola (eles te ignoravam lá também) ou faziam essas caretas e te xingavam de uns nomes horrorosos. Quando eu tinha que chegar perto de um deles eu travava e não sabia o que fazer. Claro que era diferente quando tinha gente adulta por perto. Esses meninos ficaram quietos, mas eu me senti um pouquinho mal até alguém puxar os dois para dentro da cozinha. Aí eu me dei conta da voz especialmente delicada e interessada da minha mãe, mais educada até que a da porta-voz com quem ela estava falando, e pensei que talvez a careta tivesse sido para ela. Às vezes as pessoas imitavam a voz dela quando ela ia me chamar na escola.
A mulher com quem ela estava falando e que parecia ser a encarregada de tudo ali estava levando a gente para uma parte da sala onde um homem e uma mulher estavam sentados num sofá, com cara de quem não estava entendendo bem por que estava ali. Minha mãe se abaixou e falou com eles de um jeito muito respeitoso e me apontou para os dois.
"Ela gostava demais da Sadie," ela disse. Eu sabia que era para eu dizer alguma coisa nessa hora, mas antes que eu conseguisse a mulher sentada ali explodiu num urro. Ela não olhou para nenhuma de nós duas e o som que ela fazia parecia o som que você faz quando algum animal te morde ou te rói. Ela batia nos braços como se estivesse tentando se livrar daquela coisa, mas a coisa não ia embora. Ela olhava para a minha mãe como se a minha mãe fosse a pessoa que tinha que fazer alguma coisa para resolver aquilo.
O velho disse para ela se acalmar.
"Está sendo muito duro para ela," disse a mulher que estava conduzindo a gente. "Ela não sabe o que está fazendo." Ela se curvou ainda mais e disse, "Ai-ai-ai, você vai assustar a menininha".
"Vai assustar a menininha," o velho disse obediente.
Quando ele terminou de dizer isso, a mulher não estava mais fazendo aquele barulho e dava tapinhas nos braços arranhados como se não soubesse o que tinha acontecido com eles.
Minha mãe disse, "Coitada."
"E também filha única," disse a guia. Para mim ela disse, "Não se incomode."
Eu estava incomodada, mas não com os urros.
Eu sabia que a Sadie estava em algum lugar e eu não queria vê-la. Minha mãe não tinha chegado a dizer de fato que eu ia ter que ver, mas também não tinha dito que não.
A Sadie tinha morrido voltando do salão de bailes Royal-T. Tinha sido atropelada por um carro naquela estradinha de pedra entre o estacionamento lá do salão e o começo da calçada de verdade da cidade. Ela devia estar correndo como sempre, e com certeza achou que dava para os carros verem que ela estava ali, ou que ela tinha tanto direito de estar ali quanto eles, e talvez o carro atrás dela tenha dado uma guinada ou talvez ela não estivesse bem onde achava que estava. Ela foi pega por trás. O carro que a atropelou estava saindo da frente do carro que vinha atrás, e esse segundo carro estava tentando fazer o primeiro entrar numa rua da cidade. O pessoal tinha bebido no salão, apesar de não ter bebida à venda lá dentro. E sempre tinha gente buzinando e gritando e saindo rápido demais quando a dançaria acabava. A Sadie apressada sem nem ter farol ia agir como se os outros é que tivessem que sair da frente dela.
"Uma menina sem namorado indo nos bailes a pé," disse a mulher que continuava sendo simpática com a minha mãe. Ela falou bem baixinho e minha mãe murmurou alguma coisa lamentosa.
Era pedir para alguma coisa dar errado, a mulher simpática disse mais baixo ainda.
Eu tinha ouvido umas conversas em casa que não tinha entendido. Minha mãe queria que fizessem alguma coisa que possivelmente tinha a ver com a Sadie e o carro que a atropelou, mas meu pai disse para ela deixar de lado. A gente não tem nada que se meter com as coisas da cidade, ele disse. Eu nem tentei entender isso tudo porque estava tentando nem pensar na Sadie, muito menos no fato de ela estar morta. Quando eu percebi que a gente estava indo para a casa da Sadie eu quis não ir, mas não vi jeito de escapar a não ser me comportando de um jeito imensamente feio.
Agora, depois do ataque da mulher, parecia que a gente podia dar meia-volta e ir para casa. Eu nunca ia ter que admitir a verdade, e a verdade era que eu me mordia de medo de qualquer cadáver.
Bem quando pensei que isso podia ser possível, ouvi minha mãe e a mulher com quem agora ela parecia estar tramando alguma coisa falarem do pior de tudo.
Ver a Sadie.
Sim, minha mãe estava dizendo. Claro, a gente tem que ver a Sadie.
Sadie morta.
Eu tinha ficado com os olhos bem abaixadinhos, vendo quase nada além daqueles dois meninos que mal eram mais altos que eu, e os velhos que estavam sentados. Mas agora minha mãe estava me levando pela mão em outra direção.
Tinha um caixão na sala o tempo todo mas eu estava achando que era outra coisa. Por causa da minha falta de experiência eu não sabia exatamente a cara de uma coisa dessas. Uma prateleira de acomodar flores, aquele objeto de que a gente estava se aproximando podia ser, ou um piano fechado.
Talvez as pessoas que estavam em volta tivessem dado algum jeito de disfarçar o tamanho e o formato e a função real daquilo. Mas agora as pessoas estavam respeitosamente abrindo caminho e minha mãe falou com uma nova voz, muito baixinha.
"Agora, vem" ela me disse. A delicadeza dela me soou odiosa, triunfante.
Ela se abaixou para olhar meu rosto, e isso, eu tinha certeza, era para evitar que eu fizesse exatamente o que tinha acabado de me ocorrer - ficar com os olhos bem apertados. Aí ela desviou o olhar de mim mas ficou com minha mão bem presa na sua. Eu acabei conseguindo baixar as pálpebras assim que ela tirou os olhos de mim, mas não fechei até o fim por medo de tropeçar ou de que alguém me empurrasse bem para onde eu não queria ir. Pude ver só um borrão das flores rígidas e o brilho da madeira envernizada.
Aí eu ouvi minha mãe fungando e senti que ela se afastava. A bolsa dela se abriu com um estalo. Ela tinha que pôr a mão lá dentro, então me soltou um pouco e eu consegui me libertar. Ela estava chorando. Foi ela ter que cuidar das lágrimas e da fungadeira que me deixou escapar.
Olhei bem para o caixão e vi a Sadie.
O acidente tinha poupado o pescoço e o rosto dela, mas eu não vi tudo isso de uma vez. Só tive a impressão geral de que nada nela estava tão feio quanto eu tinha temido. Fechei os olhos bem rápido, mas percebi que não conseguia evitar olhar de novo. Primeiro a almofadinha amarela que estava embaixo do pescoço dela e que também dava um jeito de cobrir a garganta e o queixo e a bochecha que eu podia ver com facilidade. O truque era ver um pouquinho dela depressa, aí voltar para a almofada, e na próxima vez dar conta de mais um pouquinho que não desse medo. E aí era a Sadie, ela toda ou pelo menos tudo que eu podia esperar ver do lado que estava à mostra.
Alguma coisa se mexeu. Eu vi, a pálpebra dela que estava do meu lado mexeu. Não estava abrindo ou abrindo pela metade, nada assim, mas erguendo só um nadinha como que para permitir, se você fosse ela, se você estivesse lá dentro dela, que você conseguisse enxergar por entre os cílios. Só para distinguir talvez o que era claro lá fora e o que era escuro.
Eu não fiquei surpresa na hora e nem um pouco assustada. Imediatamente, essa visão se encaixou em tudo que eu sabia da Sadie e de alguma maneira, também, no que quer que a experiência me reservasse de especial. E eu nem sonhei em chamar a atenção de mais alguém para o que estava ali, porque não era para eles, era completamente para mim.
Minha mãe tinha pegado a minha mão de novo e disse que estava na hora de a gente ir. Falaram mais umas coisas, mas antes que qualquer tempo passasse, pelo que me pareceu, a gente já estava lá fora.
Minha mãe disse, "Parabéns." Ela deu um apertão na minha mão e disse, "Então. Passou." Ela teve que parar para conversar com mais alguém que estava chegando na casa, e aí a gente entrou no carro para voltar pra casa. Passou pela minha cabeça que ela ia gostar que eu dissesse alguma coisa, ou quem sabe até que eu contasse alguma coisa para ela, mas não falei nada.
Nunca mais houve uma ocorrência desse tipo e na verdade a Sadie desapareceu bem depressa da minha memória, com o choque da escola, onde eu acabei dando algum jeito de me virar com uma estranha mistura de viver morta de medo e viver me exibindo. A bem da verdade um pouco da importância dela tinha desaparecido naquela primeira semana de setembro quando ela disse que tinha que ficar na casa dela agora para cuidar do pai e da mãe, então ela não ia mais trabalhar para nós.
E aí minha mãe descobriu que ela estava trabalhando na loja de laticínios.
Mas mesmo assim, por bastante tempo, quando eu pensava nela, eu nunca questionava o que eu achava que me tinha sido revelado. Bem, bem depois disso, quando eu não estava mais nada interessada em feitos sobrenaturais, eu ainda mantinha em mente que uma coisa daquelas tinha acontecido. Só que eu simplesmente acreditava, como você pode acreditar e na verdade até lembrar que um dia teve dentes de leite, desaparecidos hoje, mas mesmo assim reais. Até que um dia, um dia quando eu talvez já estivesse na adolescência, eu soube como que com um buraco esquisito nas entranhas que agora já não acreditava mais.
ALICE MUNRO, 82, é escritora canadense, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2013. Publicou, entre outros, "Felicidade Demais"e "O Amor de uma Boa Mulher", ambos pela Companhia das Letras.
CAETANO W. GALINDO, 40, é tradutor e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Paraná. 
FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Edwin Honig Poeta




 DÁDIVAS DE LUZ



Antes que as palavras
pudessem servir de conforto
uma definitiva amargura
dissipá-las-ia


- Ninguém apreende
o que está além de si

nem como
na mão quente
que lhe sustém o pensamento

o gérmen seu irmão
mata instantaneamente


Sempre
além da fala
e da cópula
há a guerra
e a morte


O criminoso
sobrevive à vítima
para se tornar
um homem tranquilo


Nenhum homem é
em si próprio
o inocente
que supõe ser


Há sempre
a guerra

o insignificante
reduzindo a lixo o essencial
o incêndio submerso
em densas espirais

e o desenho diluindo-se
sem o divisarmos
com a plenitude final
já à vista


Não há seres
interiores ou exteriores

só o frenesim dos anseios
bruxuleando
ao longo dos corredores
pelas infindáveis trevas


Na luz
não há coração

só a degradação
e a dissipação
da sempre mesma luz


Sempre
a guerras prestes a eclodir
toda a luz
desaparece de repente

todo o pensamento
se esvazia


Não há
primeiros nem últimos

só o amargo fim


(de Dádivas de Luz, tradução de António Ramos Rosa, editorial Caminho, 1992 - Caminho da Poesia)


Pacific Grove

In the meadows
sharks
in the wells
antelopes

in the sky
peelings
of wet oranges
and windows

the windows
blue winds
sharpen

eye lapsing
breath battling
in the hills

gone


Pinch-hitting

“Nothing you do
becomes you”  —

but I with decades
of living it up

believe you that true
should always win

while I still being here-
and-there in the game

to go on tying the score
with short hits and runs

add sure — hoping
that’ll do in a pinch


To Infinite Eternity

          I

Death is closer
to infinite eternity
than life is

and each life closer
to each least breath
than the blankness of
infinite eternity itself

          II

To think blankness
rouses certain terror
and in the feeling
the sudden sense

of self responding
down to the smallest
unaided particle

of its existence
as answer to
the blankness of
sure nonexistence

          III

Then infinite eternity
may be the opposite
of felt existence

durable as any
measurably
felt time

          IV

I say hello
to myself

and to break
the terror

of nonexistence
I restore my self

to existence whatever
the consequence

Jô Ramos, jornalista e escritora lança, na Bienal do Livro, A Mulher e Seus Direitos - 6 de setembro de 2013


A escritora e jornalista Jô Ramos lança o livro Violência Contra Mulheres. Dê um Basta!


Jô Ramos lança o Livro A Mulher e Seus Direitos na Bienal do Livro do Rio de Janeiro


Jô Ramos Lança 2 livros em Belo Horizonte - 26 de outubro de 2013


Jô Ramos - Entrevista no Jornal Metro


terça-feira, 11 de junho de 2013

Torquato Tasso - Poeta Italiano autor de Jerusalém Libertada e Jerusalém Conquistada.



Torquato Tasso nasceu em Sorrento a 11 de março de 1544 e morreu em Roma, no convento de Sant'Onofrio, a 25 de abril de 1595. Filho do poeta Bernardo Tasso, realizou sua formação humanística em Nápoles, Roma, Veneza, Bolonha e Pádua, onde concluiu os estudos de direito, filosofia e retórica e conheceu o filósofo Sperone, que muito o influenciaria.

Em fins de 1565 entrou para o serviço do cardeal Luigi d'Este, em Ferrara, onde residiu, com alguns intervalos, por cerca de vinte anos. Em 1571 passou ao serviço do irmão do cardeal, Alfonso II, que muito o protegeu na corte de Ferrara, proporcionando-lhe um dos períodos mais tranqüilos de sua agitada existência.

Entre 1575 e 1576, Tasso esteve envolvido com a censura inquisitorial, o que, provavelmente, lançou as raízes do desequilíbrio mental a que depois viria a sucumbir. Esse desequilíbrio, agravado por frustrações eróticas e escrúpulos religiosos, provocou o delírio persecutório que determinou, em 1580, após severa crise, o seu internamento em um mosteiro de Ferrara, ficando-lhe proibidas quaisquer visitas.

Assim viveu o poeta, com períodos alternados de lucidez e alucinação, até ser liberado por Afonso II d'Este em 1586. Pouco depois, entretanto, já em Roma e sob a proteção papal, o estado de saúde de Tasso iria agravar-se de forma crítica, e o poeta mergulhou na loucura absoluta, à qual pouco sobreviveu.

O último grande clássico

Em sua primeira obra, o poema "Rinaldo" (1562), Tasso procura dar unidade estilística ao material confuso da literatura de cavalaria através da centralização da narrativa em um único herói e da ênfase sobre os aspectos solenes da ação épica. Ainda que obra imatura, o "Rinaldo" é importante para a compreensão da gênese e do desenvolvimento ulterior das epopéias de Tasso.

Escrita em 1573, a comédia pastoril "Aminta" é superior a "Rinaldo". Com seu sensualismo renascentista e sua atmosfera idílica, "Aminta" é uma das obras-primas do gênero. Nessa obra, Tasso é, sobretudo, um poeta da melancolia, da nostalgia do idílio perdido, dos instintos recalcados pela austeridade moral da Contra-Reforma.

Com "Jerusalém Libertada" (1581), Tasso ascende à categoria de um dos mais célebres poetas de toda a literatura universal, o "último grande clássico", cujo triste destino foi lamentado por Goethe na tragédia "Torquato Tasso" e por lorde Byron no poema "O lamento de Tasso".

Comparado a Homero, Virgílio e Dante, Tasso foi, também, o último grande poeta italiano a exercer influência sobre a Europa inteira. A musicalidade do verso e o sensualismo das descrições são admiráveis. Mas a crítica moderna também aponta certos convencionalismos e a grandiloqüência, características essas, aliás, inerentes à estrutura da grande epopéia heróica e sacra do século 17, que paga tributo à "Jerusalém libertada".

Ainda que cultor de um gênero virtualmente extinto na atualidade, Tasso sobrevive porque o substrato poético de sua obra é, em essência, de natureza lírico-musical, o que vale dizer: antiépico. Muitos episódios de sua obra são momentos de intenso e comovente lirismo.

Tasso deixou várias outras obras, entre elas, uma segunda coletânea de "Rimas" e a comédia "Intrigas de amor", de autoria controversa. Tais obras, como as anteriores, revelam sobretudo o alto lirismo e a melancolia noturna do autor. A nostalgia romântica e as implicações teológicas da poesia de Tasso correspondem, a rigor, à agonia do universo de beleza criado pelo sensualismo dionisíaco do Renascimento, já então corroído pela reação contra-reformista.

La Gerusalemme liberata (Jerusalém libertada) é um poema épico escrito pelo poeta italiano do final do Renascimento, Torquato Tasso (1544–1595). Escrito em estrofes de oito linhas comuns à poesia renascentista italiana, a obra-prima de Tasso é conhecida pela beleza de sua linguagem, expressões profundas de emoção e a preocupação com a precisão histórica. O tema do poema é a Primeira cruzada de 1096 a 1099 e a busca do cavaleiro franco Godofredo de Bulhão para liberar o sepulcro de Jesus Cristo.
 

 
 
VIDA DA MINHA VIDA

Vida da minha vida,
Tu me pareces azeitona pálida,
Ou bem uma rosa esquálida,
Mas de beleza és diva,
E em qualquer modo sempre me és querida,
Ou anelante, ou esquiva;
E quer fujas, quer sigas,
Suavemente me destróis e obrigas.

Torquato Tasso
 
 
" O que o mundo chama de mérito e valor / são ídolos que têm apenas nome, mas nenhuma essência. / A fama que vos encanta, vós altivos mortais, / com um doce som, e que parece tão bela / é um eco, um sonho, melhor que um sonho, uma sombra, / que a cada sopro de vento se dispersa e desaparece".
Torquato Tasso


"O sono é o doce consolador dos homens. Dá-lhes repouso e o esquecimento de seus pesares."
Torquato Tasso
 
 Este é um trecho do Canto II de Jerusalém libertada, de Torquato Tasso, traduzido por José Ramos Coelho e publicado pela Topbooks.
 
 
Já a fogueira preparada estava,
e incitavam a chama adormecida,
quando por modo tal se lamentava
Olindo à que com ele foi unida:
“É este o laço pois que eu esperava
que nos ligasse em fortunosa vida?
É este o fogo casto dos amores,
que eu julgava nos desse iguais ardores?
Outro fogo, outros laços nos prepara,
não os de amor promessa, a iníqua sorte.
Tanto nos separou dantes avara!
Tanto, cruel, nos casa hoje na morte!
Ao menos, já que te condena, ó cara,
a tão estranho fim, sou teu consorte,
se não no leito, na fogueira; o fado
teu só choro; feliz morro a teu lado.
Oh! Fora a morte vezes mil ditosa,
e o meu martírio eu por fortuna houvera,
se, juntos peito a peito, a jubilosa
alma nos lábios teus deixar pudera!
E se, morrendo juntos, ó formosa,
teu último suspiro eu recebera!”
Tal chorando se exprime; e respondendo
ela meiga o aconselha, e vai dizendo:
“Outro pensar, amigo, outros lamentos
a ocasião mais elevados pede.
Põe nos pecados teus os pensamentos,
e no prêmio que Deus aos bons concede;
sofre em Seu nome; e doces os tormentos
serão; aspira à sempiterna sede;
olha o céu como é belo; o sol que é vida,
que nos consola e à glória nos convida.”
Nos olhos do infiel borbulha o pranto;
chora o cristão; porém a voz comprime;
um desusado, não sabido encanto
até mesmo no rei brandura imprime.
De o conhecer se indigna; arreda entanto
o olhar; mas teima em lhe assacar o crime.
Tu somente, de todos pranteada,
não pranteias, Sofrônia, conformada.
 
Enciclopédia Mirador Internacional

quarta-feira, 20 de março de 2013

QUEM ÉS TU? - POETA SUZETE CARVALHO

"Escrever é minha thémata, sina, paixão, leitmotiv, enfim, a via-crucis (prazerosa) que meu daimôn me instiga obsessivamente a percorrer, do poema ao artigo técnico, da crônica ao Ensaio sobre temas abrangentes da experiência humana. Embora um tanto afastada do mundo jurídico, em 2010 participei como co-autora das obras jurídicas "Código de Defesa do Consumidor - Comemoração dos 20 Anos" e "Estatuto da Criaça e do Adolescente - Estudos em Comemoração aos 20 Anos" (ambas da LTr Ed.), bem como do Compêndio "Mulher, Sociedade e Direitos Humanos" (Ed. Rideel), um dos finalistas do Prêmio Jabuti de 2011 na Categoria Direito".

Quem és tu?




Qual

O Teu nome,

Tu que te escondes

Dentro de mim?

Qual

A distância

Da Tua luz,

Tu que iluminas

O meu caminho?

Qual

A tua cor,

Tu que animas

O meu viver?

Qual

O caráter

Da tua essência,

Tu que formaste

O que eu sou?

Diz-me afinal, quem Tu és.

Diz-me, por Deus, quem eu sou.



( Suzete Carvalho )

sábado, 3 de novembro de 2012

AGOSTINHO DA SILVA





Biografia
George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto em 1906, tendo-se ainda nesse ano mudado para Barca d’Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), onde viveu até aos seus 6 anos, regressando depois ao Porto, onde inicia os estudos na Escola Primária de São Nicolau em 1912, ingressando em 1914 na Escola Industrial Mouzinho da Silveira e completando os estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, de 1916 a 1924.
Cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental em 1939, e em 1940 publica Iniciação: cadernos de informação cultural. É preso pela polícia política em 1943, abandonando o país no ano seguinte (1944) em direcção à América do Sul, passando pelo Brasil, Uruguai e Argentina, no seguimento da sua oposição ao Estado Novo conduzido por Salazar.
Em 1947 instala-se definitivamente no Brasil, onde viveu até 1969. Em 1948, começa a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, estudando entomologia, e ensinando simultaneamente na Faculdade Fluminense de Filosofia. Colabora com Jaime Cortesão na pesquisa sobre Alexandre de Gusmão. De 1952 a 1954, ensina na Universidade Federal da Paraíba (em João Pessoa (Paraíba) e também em Pernambuco.
Em 1954, novamente com Jaime Cortesão, ajuda a organizar a Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. É um dos fundadores da Universidade de Sant Catarina, cria o Centro de Estudos Afro-Orientais, e ensina Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia, tornando-se em 1961 assessor para a política externa do presidente Jânio Quadros. Participou na criação da Universidade de Brasília e do seu Centro Brasileiro de Estudos Portugueses no ano de 1962 e, dois anos mais tarde, cria a Casa Paulo Dias Adorno em Cachoeira e idealiza o Museu do Atlântico Sul em Salvador (Bahia).
Regressa a Portugal em 1969, após a doença de Salazar e a sua substituição por Marcello Caetano, que deu origem a alguma abertura política e cultural do regime. Desde aí continuou a escrever e a leccionar em diversas universidades portuguesas, dirigindo o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e no papel de consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, (actual Instituto Camões).

Adoptar uma só máscara? Eu acho que isso não deve ser o ideal. Porque o ideal é ir na corrente do rio, bem alegre, bem divertido com o rio, pronto para ir para todos os lugares aonde ele levar, porque acho que todas as pessoas que têm um ideal, de certo modo estão presas por esse ideal. É que o voto fundamental da pessoa deve ser, de facto, o voto à liberdade.

Claro que é impossível ter por ideal o não ter ideal, é qualquer coisa de impos­sível para nós e é muito bom que o homem saiba, que cada um saiba, que há uma série de coisas, que são efectivamente impossíveis para ele, mas que sabendo que são impossíveis, possa tentar o que é impossível, apenas porque ele é limitado, porque é um reflexo muito ténue, uma centelhazinha muito distante daquilo ou daquele de que ele é imagem.

Digo de propósito daquele ou daquilo, para dizer que dou perfei­tamente como possível que nenhum homem,nenhum pensamento personalize o aquilo, porque talvez personalizar o aquilo é já pô-lo não como nós sermos a ima­gem e criação dele, mas como sendo ele a imagem e criação nossa.

Quando as pes­soas pensam num ser divino que as vigia, que bate num, que premeia outro, etc., estão realmente a transportar-se a si próprias para uma atmosfera divina, para um poder divino que de nenhuma maneira lhes pertence. O que há lá, a tal outra coisa que pode ser tudo, é tão ilimitada, que não pode tomar nenhuma das nossas histó­rias; realmente, pela essência é imprevisível, voa a tudo. Então talvez que o ideal da Humanidade, um ideal muito importante hoje na História, é passarmos do previsí­vel ao imprevisível.

Porque nós estamos a criar e a viver uma civilização desde a primeira Pré-História, uma civilização em que nos parece que temos por ideal o previsível. Hoje a informática e outras coisas semelhantes e todas as tentativas para criar inteligência mecânica, a que tantos homens se dedicam, parecem ser exacta­mente uma maneira de dominar o imprevisível. Então acho que só nos podemos soltar disso, começando a amar, a querer o imprevisível. Porque se o quisermos, estamos na posição de termos ao mesmo tempo um ideal – o imprevisível – e de não ter ideal nenhum, porque ele é imprevisível. 

Agostinho da Silva (1906-1994) Porto, Portugal
In Vida Conversável (1994)



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O RIO DE JANEIRO GANHA NOVA REVISTA: LAPA LEGAL RIO

O mercado de revistas culturais acaba de ganhar um reforço de peso a Revista Lapa Legal Rio




A Zl Comunicação lançou a Revista Lapa Legal Rio. A publicação será mensal, dirigida ao público do Estado do Rio de Janeiro, e tem como proposta registrar as manifestações culturais do bairro da Lapa e do centro do Rio onde se concentram, hoje, muitos dos melhores restaurantes e bares da cidade, além de galerias, museus, igrejas e construções históricas. Tudo isso perto do coração financeiro da cidade.

Com o início do projeto de revitalização da Zona Portuária, anunciado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, Lapa Legal Rio será uma observadora atenta do processo de transformação do Centro da Cidade e, mais particularmente, dessa região que uma vez recuperada, se integrará ao bairro da Lapa como grande centro artístico, cultural e de lazer da Cidade Maravilhosa. Além disso, vamos cobrir as cidades de todo Estado do Rio.

A Lapa Legal Rio será divulgada em toda a rede hoteleira da cidade, casas de câmbio, agências de viagem, aeroportos etc., como forma de atrair o turismo para as atividades na região. Isso sem falar nos empresários que atuam na área. Uma parte da tiragem será distribuída em bancas de jornal estrategicamente escolhidas no centro da cidade, zona sul e zona norte.

A revista terá agenda cultural, dica gastronômica, teatro, cinema, música, entrevista e personalidades que serão convidadas a escreverem sobre diversos temas.

O objetivo da Lapa Legal Rio é informar, além de divertir e divulgar a cultura brasileira.

Editora: Jô A. Ramos
E-mail: revistalapalegal@gmail.com
Twitter: @RevistaLapa
Facebook:http://www.facebook.com/RevistaLapaLegalRio
Tel: 21 9968-8114

quinta-feira, 12 de julho de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO "VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES. DÊ UM BASTA!"


O livro Violência Contra Mulheres. Dê um Basta! é um grito, um desabafo sobre as estatísticas referentes aos assassinatos de mulheres brasileiras tão banalizados no país. Uma crítica direta às políticas públicas para mulheres. Segundo Jô Ramos, jornalista, fundadora do Movimento Defesa da Mulher e autora do livro- “A violência contra a mulher é uma violação aos direitos humanos e, como tal, merece ser tratada com mais visibilidade-”.


No livro, encontramos endereços de todas as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher e Casas Abrigo existentes no Brasil, numa tentativa de facilitar o acesso às denuncias de violência. Encontramos, também, um passo a passo de como proceder no caso de agressão, depoimentos de mulheres, entrevista com uma especialista em direitos da mulher, serviços e leis que protegem a vítima e, é claro, a história da Lei Maria da Penha, que mudou o cenário legislativo nacional e representa um avanço no que se refere aos direitos humanos, em especial, na proteção dos direitos das mulheres, mas que não inibiu o aumento dos assassinatos, estupros e agressões no país.

Lançamento: 24 de julho, às 19h, no Bar Cevada, em Copacabana, na Praça Serzedelo Correia 27, esquina com a Rua Siqueira Campos-RJ.

Tels: 55 21 2256-6467/9968-8114

terça-feira, 15 de maio de 2012

TORQUATO NETO







Ai de mim Copacabana



um dia depois do outro

numa casa abandonada

numa avenida

pelas três da madrugada

num barco sem vela aberta

nesse mar

nem mar sem rumo certo

longe de ti

ou bem perto

é indiferente, meu bem



um dia depois do outro

ao teu lado ou sem ninguém

no mês que vem

neste país que me engana

ai de mim, copacabana

ai de mim: quero

voar no concorde

tomar o vento de assalto

numa viagem num salto

(você olha nos meus olhos

e não vê nada -

é assim mesmo

que eu quero ser olhado).



um dia depois do outro

talves no ano passado

é indiferente

minha vida tua vida

meu sonho desesperado

nossos filhos nosso fusca

nossa butique na augusta

o ford galaxie, o medo

de não ter um ford galaxie

o táxi, o bonde a rua

meu amor, é indiferente



minha mãe, teu pai a lua

nesse país que me engana

ai de mim, copacabana

ai de mim, copacabana

ai de mim, copacabana

ai de mim.



O Poeta é a mãe das armas



& das Artes em geral -

alô poetas: poesia

no país do carnaval;

alô, malucos: poesia

não tem nada a ver com os versos

dessa estação muito fria.





O Poeta é a mãe das Artes

& das armas em geral:

quem não inventa as maneiras

do corte no carnaval

(alô malucos), é traidor

da poesia: não vale nada, lodal.





A poesia é o pai das ar-

timanhas de sempre: quent

ura no forno quente

do lado de cá, no lar

das coisas malditíssimas;

alô poetas: poesia!

poesia poesia poesia poesia!

o poeta não se cuida ao ponto

de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo

já sabe: não está cortando nada

além de minha bandeira\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\=

sem aura nem baúra, sem nada mais para contar

isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a

r : em primeiríssimo , o lugar.


poetemos pois

torquato neto/8/11/71/&sempre.



GO BACK




Você me chama

Eu quero ir pro cinema

você reclama

meu coração não contenta

você me ama

mas de repente a madrugada mudou

e certamente

aquele trem já passou

e se passou

passou daqui pra melhor,

foi!



Só quero saber

do que pode dar certo

não tenho tempo a perder



você me pede

quer ir pro cinema

agora é tarde

se nenhuma espécie

de pedido

eu escutar agora

agora é tarde

tempo perdido

mas se você não mora, não morou

é porque não tem ouvido

que agora é tarde

- eu tenho dito -

o nosso amor michou

(que pena) o nosso amor, amor

e eu não estou a fim de ver cinema

(que pena)



rio/agosto/71



sábado, 7 de abril de 2012

ADRIENNE RICH - POETA, ENSAISTA E FEMINISTA


A poeta e ensaísta Adrienne Rich, ícone da literatura feminista, morreu aos 82 anos na terça-feira, 27 de março, em sua casa em Santa Cruz, na Califórnia. De acordo com a família, a autora não resistiu a complicações de uma artrite reumatoide, doença que a acometia há anos.

O jornal New York Times cita que ela vendeu algo em torno de 800 mil exemplares de seus diversos livros de poesia, segundo a W. W. Norton & Company, sua editora desde a década de 1960. "Triplamente marginalizada — como mulher, lésbica e judia —, Rich preocupava-se em tratar, em sua poesia, e em muitos de seus ensaios, de questões de identidade muito antes de o termo ser criado", diz o texto.



Celebrada tanto por suas reflexões sobre sua vida quanto por comentários sociais mordazes, Rich recebeu diversos prêmios, incluindo o Ruth Lilly Poetry Prize e National Book Award, pela obra que abrange sete décadas --e uma das mais reunidas em coleção do século 20. A poeta, que era homossexual assumida e viveu uma era em que a homossexualidade era amplamente condenada na sociedade norte-americana, tornou-se pioneira na luta pelos direitos das mulheres e de outras minorias

"Ela realizou em verso o que Betty Friedan, autora de 'A Mística Feminina', fez na prosa", escreveu Margalit Fox sobre o bardo da pioneira feminista no obituário do The New York Times. O site da Poetry Foundation chamou-a de "uma das principais intelectuais públicas dos EUA".

Adrienne Rich nasceu em Baltimore, em 1929, fruto do relacionamento de uma pianista e de um renomado patologista e professor da John Hopkins. Ela se formou na Radcliff University e se casou com um professor de economia de Harvard, Alfred Conrad, em 1953, com quem teve três filhos. Seu marido morreu em 1970 e seis anos mais tarde ela foi morar junto com sua parceira Michelle Cliff.

Fonte: Folha de São Paulo


O DESERTO COMO JARDIM DO PARAÍSO



Que significaria pensar
que se é parte de uma geração
que tem simplesmente de passar?
Que significaria viver
no deserto, procurar viver
uma vida humana, algo
a transmitir aos filhos
para levar até à terra?
Que significaria pensar
que se nasceu acorrentado e que só o tempo,
nada do que se possa fazer
poder remir a escravidão
em que nasceu?



TEMPO NORTE-AMERICANO

Tudo o que escrevemos
Será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições,
é pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso dactilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar
Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção
e isto é privilégio verbal.

Adrienne Rich
em Uma Paciência Selvagem
Livros Cotovia
Tradução de Maria Ramalho e Mónica Andrade



O SONHO DE UMA LÍNGUA COMUM

Consigo ver-me há anos em Sunion,
doendo-me de um pé infectado, Filoctetes,
em forma de mulher, coxeando o longo caminho,
deitada num promontório sobre o mar escuro,
olhando pelas rochas vermelhas até onde uma espiral silenciosa
de brancura me dizia que uma onda tinha rebentado,
imaginando a força daquela água lá das alturas,
sabendo que suicídio deliberado não era comigo,
mas o tempo todo cuidando, medindo aquela ferida.
Pois bem, tudo isso acabou. A mulher que prezava
o seu sofrimento está morta. Sou a sua descendente.
Amo o tecido cicatrizado que me legou,
mas quero partir daqui contigo
combatendo a tentação de fazer da dor uma carreira.

Adrienne Rich
em Uma Paciência Selvagem
Livros Cotovia
Tradução de Maria Ramalho e Mónica Andrade

quarta-feira, 21 de março de 2012

MÁRIO DE ANDRADE




Eu Sou Trezentos...



Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo


QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.



Quarenta Anos



A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Ôh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

MAMOEL DE BARROS - PAIXÃO PELA PALAVRA




"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando". Manoel de Barros.

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande (MS). É advogado, fazendeiro e poeta.

Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras." Dez anos de internato lhe ensinaram a disciplina e os clássicos a rebeldia da escrita.

Mas o sentido total de liberdade veio com "Une Saison en Enfer" de Arthur Rimbaud (1854-1871), logo que deixou o colégio. Foi quando soube que o poeta podia misturar todos os sentidos. Conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude Comunista. Seu primeiro livro, aos 18 anos, não foi publicado, mas salvou-o da prisão. Havia pichado "Viva o comunismo" numa estátua, e a polícia foi buscá-lo na pensão onde morava. A dona da pensão pediu para não levar o menino, que havia até escrito um livro. O policial pediu para ver, e viu o título: "Nossa Senhora de Minha Escuridão". Deixou o menino e levou a brochura, único exemplar que o poeta perdeu para ganhar a liberdade.

Quando seu líder Luiz Carlos Prestes foi solto, depois de dez anos de prisão, Manoel esperava que ele tomasse uma atitude contra o que os jornais comunistas chamavam de "o governo assassino de Getúlio Vargas." Foi, ansioso, ouvi-lo no Largo do Machado, no Rio. E nunca mais se esqueceu: "Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário, aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal".

Em Nova York, onde morou um ano,fez curso sobre cinema e sobre pintura no Museu de Arte Moderna. Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçavam seu sentido de liberdade. Entendeu então que a arte moderna veio resgatar a diferença, permitindo que "uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva" e percebeu que "os delírios são reais em Guernica, de Picasso". Sua poesia já se alimentava de imagens, de quadros e de filmes. Chaplin o encanta por sua despreocupação com a linearidade. Para Manoel, os poetas da imagem são Federico Fellini, Akira Kurosawa, Luis Buñuel ("no qual as evidências não interessam") e, entre os mais novos, o americano Jim Jarmusch. Até hoje se confessa um "...'vedor' de cinema. Mas numa tela grande, sala escura e gente quieta do meu lado".



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

"No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro".

"...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós".



Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
de "O Guardador de Águas"



I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.




Uma Didática da Invenção
do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.


I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.




Mundo Pequeno
do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.



I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.



Jô A. Ramos

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

RECEITA DE ANO NOVO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Para você ganhar
um belíssimo Ano Novo cor de arco-íris,
ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)

para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa, justiça
entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro,
tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente,
experimente, consciente.

É dentro de você
que o Ano Novo cochila
e espera
desde sempre.